Uma investigação conduzida pelas autoridades americanas revelou uma operação milionária de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) em território dos Estados Unidos. Seis homens presos na Flórida admitiram participação em uma rede que, segundo o Departamento de Justiça americano, movimentou e ocultou mais de US$ 30 milhões provenientes do tráfico de drogas.
Entre os acusados, cinco são brasileiros e um é cidadão americano. Todos viviam na região de Orlando e foram presos em janeiro durante uma operação liderada pelo FBI, com apoio de outras agências de segurança dos Estados Unidos.
Os réus — Ygor Fokin Saviolli, Gabriel Cezar Menezes, João Andrade de Mello, Tadeu Sebastiane Rabelo Alves Barbosa, Leandro de Ávila Gonçalves e Omar Aliperti de Mello Correa — se declararam culpados de conspiração para lavagem de dinheiro perante a Justiça Federal americana.
Com as confissões, o caso não deverá seguir para julgamento com júri. Agora, um juiz federal deverá definir as sentenças individuais. Cada acusado pode receber pena de até 20 anos de prisão, dependendo do grau de participação, valores envolvidos e histórico criminal.
Segundo os investigadores, a organização funcionava por meio de uma rede de coleta de dinheiro em espécie obtido com a venda de drogas em diversas cidades americanas. Os valores eram recolhidos, depositados no sistema financeiro e posteriormente enviados para beneficiar fornecedores e integrantes da estrutura criminosa fora dos Estados Unidos.
As coletas eram coordenadas por meio de aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, envolvendo pessoas responsáveis por localizar, transportar e movimentar grandes quantias em dinheiro vivo. Entre as cidades onde ocorreram operações estão Atlanta, Charlotte, Chicago, Cleveland, Minneapolis, Rochester e Tampa.
Estrutura financeira entre Brasil e Estados Unidos
De acordo com o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, a rede investigada fazia parte de uma estrutura financeira internacional associada ao PCC, com dois principais núcleos de atuação: um localizado na Flórida e outro em São Paulo.
As autoridades americanas apontam que Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira fariam parte da estrutura brasileira responsável por conectar operadores financeiros da facção nos Estados Unidos com integrantes ligados ao tráfico internacional.
Parte dos recursos teria sido transferida entre os países por meio de criptomoedas, em uma tentativa de movimentar valores sem utilizar os caminhos tradicionais do sistema financeiro.
Apesar da ligação apontada pelas autoridades, os documentos oficiais não afirmam que todos os envolvidos eram integrantes formais do PCC. A investigação indica que alguns atuavam como operadores financeiros, facilitadores ou transportadores a serviço da organização criminosa.
PCC e Comando Vermelho entram no radar de Washington
O caso ocorre em um momento de maior pressão dos Estados Unidos contra organizações criminosas brasileiras. O governo americano classificou recentemente o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras, ampliando os instrumentos legais disponíveis para aplicar sanções financeiras e combater estruturas consideradas ameaças transnacionais.
A decisão permite ações contra pessoas e empresas apontadas como integrantes ou apoiadores das organizações, incluindo bloqueio de ativos e restrições financeiras.
Segundo autoridades americanas, a preocupação é que grupos brasileiros tenham ampliado sua presença internacional por meio do tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, movimentações financeiras clandestinas e conexões com redes criminosas em outros países.
Combate ao tráfico de armas e novas preocupações
Além do dinheiro, outro ponto de atenção para as autoridades americanas é o possível fluxo internacional de armas destinadas a organizações criminosas brasileiras.
O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) informou que acompanha os impactos de mudanças propostas pelo governo americano para flexibilizar regras de compra de armas pela internet, avaliando se as alterações podem criar riscos para o combate ao tráfico internacional.
A preocupação ocorre porque investigações anteriores apontam que parte dos armamentos apreendidos no Brasil teve origem nos Estados Unidos e chegou ao mercado ilegal por meio de desvios e compradores intermediários.
Investigação continua
A operação contra a rede ligada ao PCC na Flórida foi conduzida pelo FBI, com participação da DEA e da divisão de Investigações de Segurança Interna do Departamento de Segurança Interna, incluindo equipes de Miami e do escritório de ligação em Brasília.
Com as condenações, os acusados brasileiros ainda poderão enfrentar consequências migratórias nos Estados Unidos após o cumprimento das eventuais penas, enquanto o cidadão americano Omar Correa não está sujeito a deportação.
O caso reforça a atenção das autoridades internacionais sobre a expansão das facções brasileiras além das fronteiras e mostra como a atuação financeira desses grupos passou a ser um dos principais alvos das forças de segurança americanas.

