Imagine um país que levou a escravização de pretos africanos até a penúltima década do Século 19. Essas pessoas eram exploradas como força de trabalho cativa para, por exemplo, a lida nas lavouras de cana-de açúcar e de café. Além da riqueza material criada pelos pretos e apropriada pelos brancos, a diáspora de escravizados africanos legou a esse país uma imensa fortuna cultural, sempre reverenciada na culinária, no idioma, na música, no encantamento do mundo ou sacralidade. A descrição poderia ser do Brasil, mas é de um espelho nosso refletido no mar do Caribe: Cuba.
Vem daquela ilha, um pouco maior em área que o Estado de Santa Catarina, o enredo Lonã Ifá Lukumi, criado pelo Grêmio Recreativo Escola de Samba Paraíso de Tuiuti.
>> Enredos das escolas de samba contam a história não oficial
>> Conheça os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio em 2026
>> Acompanhe a cobertura do carnaval na Agência Brasil
A letra do samba-enredo que será interpretada por Pixulé, nome artístico de Roosevelt Martins Gomes da Cunha, foi encomendado pela agremiação ao professor de história e compositor Luiz Antonio Simas, em parceria com Claudio Russo e Gustavo Clarão que já fizeram outros sambas sob demanda para desfiles da Tuiuti.
Eu entrei na parceria porque o enredo me interessava, conta Simas em entrevista à
Agência Brasil. Eu fiquei muito motivado com o enredo sobre a religiosidade afro-caribenha e as relações que ela tem com o Brasil.
Compreender o enredo Lonã Ifá Lukumi requer analisar as três palavras que compõem esse título. Loña diz respeito a conexões, caminhos ou comunicação entre humanos e divindades; Lukumi (ou Lucumí, na forma aportuguesada) se refere aos descendentes iorubás escravizados em Cuba; já o ifá, ensina o mestre Nei Lopes, é uma forma de religiosidade que une espiritualidade e racionalidade, filosofia e tecnicidade; que fundamenta e justifica inúmeras práticas rituais.
O cantor, compositor, pesquisador e escritor Nei Lopes é autor do livro Ifá Lucumí: o resgate da tradição (Pallas Editora). A publicação originou o enredo, como conta o carnavalesco da Paraíso de Tuiuti, Jack Vasconcelos, em áudio compartilhado pela agremiação para a imprensa.

