O caso Banco Master deixou de ser apenas um episódio de deterioração financeira de uma instituição de médio porte e se transformou em um dos assuntos mais sensíveis do país no início de 2026: um teste de credibilidade para o sistema de controle, para o Banco Central e para o próprio ambiente institucional brasileiro. A liquidação extrajudicial do banco, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, foi oficialmente motivada por grave crise de liquidez, deterioração financeira e violação de normas do sistema financeiro.
O que ampliou o alcance do episódio foi a combinação de três elementos: investigações federais, suspeitas de operações complexas com fundos e garantias, e a percepção de que o caso passou a sofrer pressões políticas e disputas em órgãos de controle. A partir daí, o assunto entrou no radar de investidores, do Congresso e da imprensa internacional, com repercussões que vão além da instituição liquidada.
Da crise do banco ao terremoto político-institucional
Embora o Banco Master representasse menos de 1% dos ativos do sistema bancário brasileiro, seu colapso chamou atenção pela velocidade do crescimento e pelo modelo de captação, associado a instrumentos de alto rendimento e ao debate sobre o funcionamento do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
Nos bastidores, o caso se desdobrou em uma disputa que atingiu o coração de Brasília. Reportagens apontaram que a liquidação e o destino dos ativos envolveram questionamentos no TCU, além de episódios que elevaram a tensão entre grupos políticos e órgãos fiscalizadores. A agência Reuters relatou que um magistrado do Tribunal de Contas avaliou medidas para impedir a venda de ativos durante o processo de liquidação e determinou inspeção dos documentos que fundamentaram a decisão do Banco Central.
Ao mesmo tempo, investigações começaram a avançar sobre supostos vínculos de bastidores e eventuais beneficiários ocultos. Nesta segunda-feira (19), a Reuters noticiou que o ministro do STF Dias Toffoli autorizou o congelamento de ativos do empresário Nelson Tanure, a pedido da PGR, em investigação ligada ao Banco Master informação que elevou ainda mais a temperatura política do caso.
Risco sistêmico: não é apenas "tamanho", é confiança
No debate técnico, o governo tentou reduzir a percepção de contágio. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o caso é grave, mas avaliou que não representa risco sistêmico para o sistema como um todo.
Por outro lado, relatórios e análises de mercado apontam o risco por outro ângulo: o risco sistêmico pode nascer da perda de confiança, e não apenas do tamanho do banco. A Polícia Federal citou "fortes indícios" de desvio de recursos e mencionou "risco sistêmico ao sistema financeiro" em material associado às investigações, segundo reportagem do InfoMoney.
A Agência Brasil, ao explicar a sequência dos fatos, destacou que as apurações e relatórios mencionam que o colapso do Master não teria sido apenas financeiro, mas também institucional, com conexões envolvendo estruturas do mercado e o debate público sobre governança e fiscalização.
O efeito prático é um só: quando a credibilidade do processo de resolução é questionada, o custo de captação aumenta e a percepção de risco se espalha para instituições similares. É nesse ponto que o episódio deixa de ser um problema isolado e passa a criar um prêmio de risco para o setor.
Possível "efeito dominó" e o alerta em outras pontas do sistema
O temor de contaminação aparece especialmente em segmentos que dependem de confiança e liquidez diária. O Banco Central, inclusive, avançou sobre instituições conectadas ao caso. Em 15 de janeiro, a autoridade monetária determinou a liquidação da corretora REAG (CBSF), citando "violações graves", e a Reuters relacionou a medida a apurações que apontam transferências e estruturas suspeitas envolvendo o Banco Master.
Esse desdobramento reforçou uma preocupação recorrente no mercado: o risco pode migrar para operações paralelas, como estruturas com fundos e veículos que fogem do escrutínio bancário tradicional. Por isso, a discussão sobre regulação ganhou força.
Repercussão internacional: o Brasil no radar de investidores
Mesmo sendo um episódio doméstico, o caso rapidamente ganhou leitura internacional por tocar num ponto essencial: a independência técnica das instituições e a previsibilidade regulatória. A Reuters vem acompanhando o episódio com foco na relação entre Banco Central, TCU, investigações e pressões políticas, registrando o assunto como elemento observado por investidores internacionais.
Além disso, análises publicadas fora do circuito tradicional brasileiro descrevem o caso como um tipo diferente de risco: não necessariamente um "Lehman Brothers" em tamanho, mas um episódio que testa os limites entre supervisão técnica e interferência institucional justamente o tipo de sinal que mexe com percepção de risco-país e precificação de ativos.
Resposta do governo: mudança regulatória após o choque
Como reação ao caso, Haddad defendeu ampliar o poder do Banco Central para supervisionar fundos de investimento, hoje na esfera da CVM, como forma de reforçar o controle do sistema após o episódio. A proposta foi noticiada por Reuters e também por Bloomberg, mostrando que o caso Master pode virar um marco regulatório para o setor financeiro brasileiro.
Um caso que ainda não terminou
O Caso Banco Master entra para a lista dos episódios que deixam marcas duradouras porque reúne, ao mesmo tempo, investigação policial, disputas políticas, tensão regulatória e risco reputacional. Mesmo que o sistema bancário brasileiro seja robusto, o episódio aumenta o custo da incerteza: investidores exigem mais prêmio, instituições menores são observadas com lupa e o debate sobre governança volta ao centro do poder.
No curto prazo, o impacto mais imediato não é uma quebra generalizada, mas a erosão do ativo mais valioso de qualquer sistema financeiro: a confiança.

